Rolei sem sono a noite toda, é como se a cama não fosse minha. É como se eu não coubesse dentro do meu quarto. É como se a alma quisesse voar por aí. É como se meu coração não coubesse na noite.
Há sempre nos lábios o vermelho rubro, os dentes vorazes ensaiam sorrisos lúgubres, é um fingimento sem fim tentando esconder o desejo notável. Mais fácil seria sorrir e morder de uma vez. Ela tem um lado selvagem, ele sabe.
Fazia certo tempo desde a última vez em que se encontraram, mais ou menos uns dois anos, ela não lembrava ao certo. Foi numa loja de artigos para decoração, ele estava com a noiva, noiva esta que Janinie nem sabia que existia. Depois de entender o porquê de Glauco nunca mais tê-la convidado para uma noitada daquelas, Janinie passou noites vazias imaginando quais móveis o casal teria comprado.
Enquanto tomavam o café, em comemoração a um esbarro repentino que proporcionou este reencontro, Glauco fitava intensamente a boca de Janinie. Ele gosta daquele batom “Vermelho Intenso Extreme”, ele nunca esqueceu nem o nome nem o poder que aquele batom tinha sobre ele. “Janinie gosta de morder e ninguém nunca esquece as mordidas de Janinie”, ele pensou num momento de descontrole, mas por sorte tal pensamento não chegou à mesa da cafeteria.
Pediram uns bolinhos de queijo, tomaram mais um café e despediram-se. Janinie chegou em casa com o Vermelho Intenso Extreme intacto e Glauco voltou para a sua mobília cara.